Responsabilidade individual e liderança diante do erro operacional

24 de fevereiro de 2026
Folha de Vitória
 

Liderar uma empresa não é apenas tomar boas decisões, mas assumir integralmente as consequências delas, inclusive quando algo dá errado. Em ambientes empresariais cada vez mais complexos, erros operacionais são inevitáveis. O que diferencia líderes responsáveis de gestores frágeis não é a ausência de falhas, mas a disposição de enfrentá-las sem recorrer a desculpas, terceirização de culpa ou vitimização. A responsabilidade individual começa exatamente no ponto em que termina a busca por justificativas externas.

Estudos da Harvard Business Review indicam que organizações com maior clareza de accountability e governança interna tendem a responder mais rapidamente a falhas operacionais, reduzindo impactos financeiros e riscos institucionais. Nesse contexto, liderança deixa de ser discurso e passa a ser prática cotidiana.

 
Em maio de 2025, uma empresa de consultoria em planejamento financeiro passou por uma mudança estratégica em seu modelo de negócio. A empresa migrou parte de seus serviços para um formato de recorrência, buscando maior previsibilidade de receita e escalabilidade do atendimento. Para viabilizar esse novo modelo, foi necessária a adoção de um gateway de pagamento. As vendas passaram a ser realizadas por meio de uma plataforma de comercialização integrada a um sistema de processamento financeiro. A decisão foi tomada de forma consciente, dentro da autonomia empresarial das sócias, como parte de um movimento natural de crescimento e profissionalização do negócio.

Entre as competências de maio de 2025 e dezembro de 2025, ocorreu um erro operacional relevante: tanto a plataforma de vendas quanto o sistema de pagamento passaram a emitir notas fiscais referentes às mesmas operações. Na prática, isso significou que um faturamento real aproximado de R$ 150.000 em consultorias foi registrado fiscalmente como R$ 300.000. Embora o valor duplicado jamais tenha ingressado no caixa da empresa, ele foi considerado como receita tributável para fins de apuração do Simples Nacional. O erro não foi identificado imediatamente. Ele só veio à tona em janeiro de 2026, no momento de conferência detalhada do cálculo dos impostos recolhidos. A forma como a situação foi conduzida após a descoberta do problema é o ponto central deste case.

Ao identificar a inconsistência, as três sócias da empresa atuaram de maneira imediata e coordenada. Não houve busca por culpados externos, nem transferência de responsabilidade para fornecedores, sistemas ou terceiros.

 

Ações e Responsabilidades

Cada sócia assumiu, de forma objetiva, uma frente de atuação:

  • levantamento técnico da origem do erro,
  • contato com os envolvidos e análise fiscal,
  • revisão dos processos internos e definição de novos controles.

Em paralelo, os fluxos operacionais foram revisitados. As responsabilidades foram redistribuídas com mais clareza, e foram criados mecanismos de verificação para evitar que erros semelhantes voltem a ocorrer.

Este caso ilustra, de forma concreta, o princípio da responsabilidade individual.

A decisão de mudar o modelo de negócio foi livre. O erro operacional foi uma consequência possível dessa escolha. E a resposta ao erro foi assumir integralmente seus efeitos, corrigir os processos e fortalecer a estrutura da empresa.

Não houve apelo à vitimização, nem tentativa de relativizar o impacto financeiro do problema ou negar a falha; houve ação.

Além disso, a empresa não buscou atalhos, não ignorou a obrigação fiscal e não tratou o problema como algo “menor”. Ao contrário, tratou a questão com seriedade, transparência e respeito às regras vigentes.

Por fim, o episódio evidencia uma compreensão madura da economia de mercado: empreender envolve risco, e o risco exige governança, controles e líderes dispostos a responder pelas próprias decisões.

 

Liderança e Responsabilidade

Liderança empresarial não se manifesta na ausência de erros, mas na forma como eles são enfrentados. O caso demonstra que liberdade sem responsabilidade gera fragilidade, enquanto liberdade acompanhada de responsabilidade fortalece a empresa e seus líderes.

Para jovens lideranças, o aprendizado central é claro: crescer exige autonomia, mas permanecer sustentável exige assumir as consequências, corrigir rotas e fortalecer processos. Esse é o caminho da liderança responsável em uma economia livre.

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